
Candidato ao governo do Rio, o deputado estadual Douglas Ruas (PL) tem usado a campanha para atacar o uso de dinheiro público em grandes shows. No lançamento da candidatura, no Maracanãzinho, ele criticou o show de Madonna em Copacabana e o que chamou de "farra de camarote na Sapucaí". Um documento assinado pelo pai dele, o prefeito de São Gonçalo, Nelson Ruas (PL), mostra que na cidade governada pela família a regra é outra. No Termo de Cooperação nº 001/2026, a prefeitura se comprometeu a oferecer, entre outros itens, um camarote para convidados no São Gonçalo Fest. O festival gratuito reuniu Belo, Ferrugem, Mumuzinho e Matheus & Kauan entre 17 e 21 de setembro.
O termo foi firmado em 4 de maio entre o município e a Dual Rodrigues Produções Artísticas e Edições Musicais Ltda, organizadora do evento. A cláusula sexta trata da contrapartida da prefeitura e diz que caberá ao município "a disponibilização de toda estrutura necessária para a realização dos eventos". Em seguida, lista palco, tendas, posto médico, camarim, camarote convidados, backdrop, pórticos, grades, barricadas, som, iluminação, gerador, painéis de LED e banheiros químicos. A limpeza do local também ficou a cargo do município.

Segundo a própria prefeitura, foram gastos R$ 2,6 milhões na estrutura do festival, realizado na Arena São Gonçalo, em Alcântara. Ao explicar o valor, a administração disse que o dinheiro foi usado na montagem de palco, som, iluminação e banheiros. O camarote para convidados, previsto no documento assinado pelo prefeito, não aparece nessa explicação. A prefeitura também negou ter gasto R$ 3,4 milhões, valor citado em documento que a organizadora enviou à Secretaria estadual de Turismo em 1º de setembro.

O custo total da festa é quase o triplo do gasto declarado pela prefeitura. Publicação no Diário Oficial do Estado registra o São Gonçalo Fest como projeto nº 90532, apresentado pela Dual Rodrigues, com valor total de R$ 7.498.111,90. Desse montante, R$ 1.494.500 foram aprovados para captação pela lei estadual de incentivo à cultura. A Enel e a Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio (Funarj) repassaram R$ 1 milhão cada, e o evento também teve patrocínio da Secretaria de Estado de Turismo.
Em nota, Douglas Ruas afirmou que os cachês dos artistas foram pagos por empresas privadas e que o investimento do pai se limitou à estrutura, sem sobrecarregar os cofres da cidade. O termo confirma a primeira parte: pela cláusula terceira, a remuneração dos artistas, da produção e o recolhimento do ECAD ficam por conta da empresa. Mas o mesmo documento mostra que a "estrutura" paga com dinheiro público ia além de palco e som e incluía um espaço reservado a convidados.

O contraste com o discurso de campanha é direto. Douglas, que foi secretário na gestão do pai, defende que o dinheiro gasto com grandes eventos deveria ir para saúde, educação e segurança. Na TV Globo, em setembro, repetiu as críticas aos megashows promovidos no Rio pelo ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), seu adversário na disputa pelo governo.
O prefeito Nelson Ruas esteve em dois dias do festival. No domingo, acompanhado da primeira-dama, Marinete Ruas, viu a Arena receber público recorde de 60 mil pessoas, segundo a organização.

Procurada, a Prefeitura de São Gonçalo não respondeu até a publicação desta reportagem. A reportagem perguntou quanto custou o camarote, quem eram os convidados e por que o item não foi citado no detalhamento dos gastos.