
A Rede Sol Fuel Distribuidora, empresa investigada na Operação Carbono Oculto por suposta ligação com a estrutura financeira do Primeiro Comando da Capital (PCC), mantém um contrato de R$ 168,8 milhões com o Governo do Estado do Rio de Janeiro para abastecer a frota da Polícia Militar.
O contrato foi firmado em março de 2025, durante a gestão do então secretário de Polícia Militar, coronel Marcelo Menezes, e prevê o fornecimento de aproximadamente 36,7 milhões de litros de combustíveis — sendo 32 milhões de litros de gasolina e mais de 4 milhões de litros de diesel S10 — para os 70 postos internos da corporação. O acordo é válido até abril de 2027 e poderá ser prorrogado por até dez anos.
A permanência do contrato ocorre quase um ano após a deflagração da Operação Carbono Oculto, investigação conduzida pelo Ministério Público de São Paulo que apura um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo empresas do setor de combustíveis e supostas conexões com o PCC.
Segundo o MP, a Rede Sol está entre as empresas cujas notas comerciais foram adquiridas pelo Mabruk II Fundo de Investimento, apontado pela Receita Federal como um dos fundos utilizados para financiar operações investigadas no mercado de combustíveis.
Após ser questionada sobre a manutenção do contrato, a Polícia Militar informou que a contratação ocorreu antes da divulgação das investigações e que, na época, a empresa cumpria todos os requisitos previstos na legislação e no edital do pregão eletrônico. A corporação afirmou ainda que já conduz uma nova licitação para garantir o abastecimento da frota.
O contrato contempla o fornecimento de combustíveis para cerca de 5 mil veículos da Polícia Militar por meio de um sistema automatizado de gerenciamento dos postos internos da corporação.
Desde sua assinatura, o acordo passou por três alterações para inclusão de novas fontes de recursos. Em julho de 2025, foram incorporados R$ 456 mil provenientes de um convênio com a Prefeitura de Barra do Piraí. Em outubro, outros R$ 8,49 milhões foram acrescentados por meio do Fundo Especial da Polícia Militar. No mês seguinte, mais R$ 1,77 milhão foi incluído utilizando recursos do mesmo fundo.
Além dos apostilamentos financeiros, um termo aditivo prorrogou o prazo para instalação de equipamentos fornecidos em comodato e autorizou o remanejamento de tanques de combustível entre batalhões.
Antes mesmo da Operação Carbono Oculto, a distribuidora já havia sido alvo de questionamentos. Em maio de 2025, o 38º BPM, em Três Rios, identificou irregularidades em um carregamento de gasolina fornecido pela empresa.
Segundo a Polícia Militar, um caminhão transportava combustível com 37% de etanol anidro, índice superior ao limite de 27% permitido pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). A irregularidade foi confirmada por perícia do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), dando origem a um processo que tramita sob sigilo.
Na ocasião, de acordo com o então secretário Marcelo Menezes, a empresa foi multada em mais de R$ 1 milhão e ficou impedida de participar de licitações no município de Três Rios por um ano.
No início deste ano, a Prefeitura do Rio suspendeu a contratação da Rede Sol para o fornecimento de diesel à frota da Mobi-Rio até a conclusão das investigações da Operação Carbono Oculto.
Embora tenha sido habilitada como fornecedora reserva em um contrato estimado em R$ 68,2 milhões, a empresa deixou de ser considerada para o abastecimento, permanecendo apenas como opção em caso de necessidade.
O ex-governador Cláudio Castro afirmou que a responsabilidade pela licitação cabia à Secretaria de Estado de Polícia Militar e disse que não comentaria o caso.
Já o ex-secretário Marcelo Menezes declarou que a contratação ocorreu por meio de pregão eletrônico, sem direcionamento, e que a empresa estava regularmente habilitada no momento da assinatura do contrato. Segundo ele, não havia fundamento jurídico para rescindir um contrato essencial para o funcionamento da corporação apenas em razão de investigações ainda não concluídas.
Em nota, a Polícia Militar reiterou que a contratação foi legal, destacou que mantém fiscalização permanente sobre a execução do contrato e informou que um novo processo licitatório já está em andamento para garantir a continuidade do abastecimento das viaturas.
A Rede Sol não se manifestou sobre a reportagem. Em posicionamento divulgado anteriormente, a empresa afirmou repudiar qualquer associação com organizações criminosas e declarou estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.